Cooperativa Eparreh conclui projeto da Lei de Fomento à Periferia com mais de 200 formadxs em eco-cursos!

Por Caroline Fortes e Cooperativa Eparreh

Hoje viemos transbordando sentimentos de amor e gratidão, gratidão pelos muitos educadorxs / artistas que sonharam em um dia viabilizar estudos de formação em permacultura que a princípio eram elitizados e acessíveis apenas a uma parcela da sociedade, falar de permacultura, uma ferramenta construída com seus alicerces nas comunidades tradicionais e na sistematização dos seus conhecimentos, enfatizando sobre a partilha justa e sobre o cuidado com a terra e o cuidado com as pessoas.

Conhecimentos ancestrais que nos deparamos a cada dia em meio as vielas e subidas das periferias da zona sul de São Paulo, lugar rico de cultura onde as  pessoas lutaram e continuam lutando para criar meios para viabilizar o acesso a cultura, uma luta coletiva de todas as regiões periféricas de São Paulo possibilitaram e ainda possibilitam que a cultura possa chegar, e chegar com uma “bagagem” para que ela aconteça e seja construída com qualidade, para que ela possa fazer jus aos recursos públicos que as periferias e os movimentos culturais recebiam apenas migalhas. A Lei de Fomento a Periferia onde fomos contemplados em 2017, nos possibilitou realizar um sonho de trazer para dentro da periferia os conhecimentos da periferia, para mostrar alternativas e outras possibilidades, para compartilhar ideias de autonomia e formação para mais educadores, sendo a educação a única ferramenta que realmente muda uma sociedade.

Unimos aos cursos diversas apresentações e encontros culturais, para fortalecer os artistas da região e criar uma rede de transformadores, no decorrer dos 2 anos de projeto, tivemos 660 inscritos, infelizmente não conseguimos contemplar todos, tínhamos uma limitação de vagas, ainda assim tivemos aulas abertas com rotatividade de 90 pessoas! Foram 90 pessoas em um mesmo dia, conversando, se conectando fazendo troca de conhecimentos. Concedemos 120 certificados para o curso de permacultura, permacultura popular e gratuita, acessível e extremamente acolhedora, acolher sempre foi nosso dilema desde a primeira formação, poder olhar para o todo, e ter uma visão holística. Observamos, percebemos e perguntamos como as pessoas se sentiam, se o lugar parecia agradável, se teríamos comida para todos poderem se alimentar com qualidade, se estávamos possibilitando uma inclusão em todos os aspectos tanto sociais, culturais, de gênero, físicos e de pertencimento racial.

Buscamos construir os cursos e as atividades do dia de forma coletiva, onde os participantes tinham espaço para se engajar, serem ouvidos e estimulados, sempre trabalhando com um olhar carinhoso e inclusivo, permitindo situações onde as pessoas se apropriavam do espaço e faziam dele parte de si, compartilhando suas histórias de vida e conhecimentos, e relacionando essas com os conhecimentos compartilhados pelos educadores. Nossas dinâmicas de aulas foram construídas de forma diferente para cada turma, e foi maravilhoso observar o pessoal, a vontade para ajudar na arrumação da sala, na cozinha preparando o lanche ou almoço comunitário, convidando a trazerem toda bagagem de conhecimento que cada ser humano carregava.

Os resultados foram de encher os olhos d’água, a capacidade de um grupo altruísta demonstra o quanto somos fortes unidos por um bem comum. Na busca de resgatar essa coletividade que existe de forma tão intensa nas periferias e que está se perdendo cada vez mais, a coletividade que foi construída por necessidade, por perceber que realmente quando nos unimos a carga fica mais leve! Desta formação de permacultura ao final de cada ciclo os permatorxs desenvolviam projetos que eram construídos individualmente ou coletivamente, que traziam dentro de si suas observações, vivencias e sua história, conectando as fontes de resistência e permitindo que atuem em seus territórios, hortas, escolas, UBS, casas e construindo relações de resiliência, superando as adversidades e abrindo brechas em meio ao concreto para florescer novas alternativas. Essa capacidade de superação e renascimento, nós nos deparamos com elas a cada novo dia dentro da periferia, sendo essa umas das características que marcam este território.

Tivemos o prazer de conviver durante as formações de Agroecologia e Educação Ambiental com 69 novos educadores ambientais, pessoas que estão transformando o ambiente por onde passam. Bioconstruimos com 10 pessoas certificadas e outras tantas no decorrer dos dias dos encontros que acabamos não computando, desenvolvemos nosso dom de criar com 21 pessoas no curso de Designer de Bambu onde expressaram seus sentimentos e personalidade durante as construções de estruturas grandes e peças de artesanato.

Os encontros musicais e culturais que conectaram pessoas diferentes, de diferentes culturas e cidades, reforçaram as músicas tradicionais e nos reconectaram a esse nosso passado que muitas vezes foi soterrado. Foram encontros de Samba de coco, vivência musical com Dinho Nascimento e a Orquestra de Berimbau do Moro do Querosene, Vários Saraus, vivência musical com o mestre Edmilson do Pífano, Jongo com os Candongueiros do Campo Limpo, apresentação com Indígenas Wiphala, vivência Rastafari  Nyahbinghi com o Grupo Bola de Fogo, Cortejo pelo parque com o Bloco de Pífano de São Paulo e apresentação do grupo musical Maria Mariá com músicas de capoeira. Resgatamos nos encontros práticas antigas de escambo a partir das feiras de troca que eram organizadas, fazendo girar o que estava parado para dar novo espaço a energias renovadoras, trocar o que já não tinha utilidade, recebendo o que realmente precisava e percebendo que o dinheiro não é nosso único meio possível de conseguir o que realmente necessitamos, estabelecendo assim uma outra lógica de compartilhar os excedentes, desconstruindo essa ideia de acumulação e competição que nos deparamos a cada dia.

O nome capoeira deriva da palavra em tupi-guarani e quer dizer “mato ralo” e vem de uma técnica de agricultura indígena muito conhecida em todo Brasil a “coivara”. Os capoeiras no geral, em sua grande maioria eram trabalhadores da terra ou pescadores e até mesmo pastores de animais. As músicas mais populares afirmam essas informações, como exemplo “corta cana no canavial”, “madeira boa é pau pereira”, “Buraco veio tem cobra dentro”, “Sou boiadeiro sou eu” e “O peixe pulou na maré” entre outras músicas onde contam histórias que não contam nas escolas, falas sobre libertação, sobre respeito. Sendo os encontros de capoeira angola, jongo, o samba coco e as rodas de ciranda ligados a nossa ancestralidade e consequentemente ligados também a permacultura, buscando a partir da musicalidade o reencantamento humano, unindo histórias de ancestralidade e oralidade ao projeto. Buscando fortalecer esse fio condutor de transformação que já vem sendo construído e desenvolvido nos 12 anos da Cooperativa Eparreh.

Tivemos aulas abertas de Cozinha Alternativa onde a oralidade se reafirmou, possibilitando que xs participantes do grupo de atividades da terceira idade, conhecido no parque Santo Dias como Chá da Vovó, junto aos participantes de diferentes idades trocassem conhecimentos sobre alimentação saudável, veganismo e vegetarianismo, saúde e autocuidado a partir do feitio de leites vegetais, pestos, patês vegetais, kombucha e macarrão vegetal com molho de tomate caseiro. Nas oficinas, tivemos a oportunidade de conversar sobre economia local e solidária, fomentar praticas de consumo consciente no território, plantando sementes de prosperidade e consciência de classe. Hipócrates já dizia há 400 anos a.C. “que nosso alimento seja nosso remédio e que nosso remédio seja nosso alimento”. Portanto, buscamos disseminar o máximo de conhecimentos sobre alimentação saudável, para reapropriar os conhecimentos sobre plantas de comer, alimentação consciente e aproveitamento total dos alimentos na periferia.

Todas as atividades desenvolvidas nos aproximaram mais dos doze princípios que são ditados na permacultura:

1. Observamos cada um de vocês e interagimos da melhor forma que conseguimos.

2. Captamos e armazenamos todas as energias, e acredito que multiplicamos essas energias e as conectamos em forma de uma rede.

3. Obtemos os melhores rendimentos, que iram captar e gerar mais energias.

4.Durante o processo, que também foi transformador para nós, buscamos praticar a auto-regulação se moldando de forma diferente e única para cada situação.

5. Sempre buscando valorizar e usar serviços e recursos renováveis.

6. Buscando não produzir desperdícios.

7. Projetando e planejando nossas ações partindo dos padrões da natureza para podermos chegar nos detalhes.

8. Integrando os conhecimentos, as pessoas, as experiências e as histórias.

9. Com soluções sempre lentas e pequenas, indo juntos para chegar mais longe.

10. Vivendo, Usando e Fortalecendo as diversidades.

11. Sendo e Usando as bordas, valorizando sempre os elementos marginais.

12. Com criatividades e resiliência para se moldar e se formar conforme as mudanças ocorriam.

Foi gratificante viver essa transformação, construindo cada dia e cada atividade embasados nesses conhecimentos, não podemos deixar de agradecer aos educadores que estiveram todos os dias construindo os cursos e compartilhando seus conhecimentos, por isso Gratidão Andreza Rodrigues, Andrea Conard, Caroline Fortes, Diogo Menezes, Evellyn Corrêa, Jackson Ramos, Lucas Ciola e Mariana Martins, agradecer a todos os educadores periféricos ou não, todos os artistas culturais e artistas de rua que se disponibilizaram a estar com a gente nas tardes do Meu Eparreh, com cada pessoa que se disponibilizou e foi atrás para se inscrever e obter informações sobre os cursos, com cada pessoa que esteve nas formações e que podemos conviver nem que por alguns instantes! Agradecer a cada pessoa que se abriu e abraçou sua sombra e suas vulnerabilidades, com cada pessoa que fez a diferença a partir de um sorriso, ou um alimento preparado, ou um abraço compartilhado, com cada projeto que foi elaborado e em alguns casos concretizado!

Agradecer as diversidades que se fizeram presentes em cada edição, agradecer a massa fortalecida e sempre em maior porcentagem de mulheres inscritas e participantes dos cursos! Maravilhoso estar em um espaço onde muitas mulheres transformadoras criam juntas, um espaço onde as mães com suas crianças mudavam e desmistificavam ideias de que ensino e maternagem não dão certo, de que crianças e bebes não devem estar em ambientes de ensino, muito pelo contrário! Tivemos o privilégio de vivenciar e aprender com as crianças e essa experiência é a coisa mais rica, possibilitar a construção de um espaço de educação fluido e acolhedor nos estimula de diferentes formas a aprender, a trazer pra dentro de nós esses conhecimentos e fazer deles partes de nós e parte da nossa história e caminhada.

Agradecemos imensamente a todxs participantes dos cursos e a todxs parceirxs que construíram juntos essa experiência de educação transformadora, agradecemos aos Transformadores Culturais Periféricos que em parceria com a Secretária de Cultura do Estado de São Paulo criaram e sancionaram a Lei de Fomento à Cultura na Periferia, agradecemos a concessão dos espaços de realização dos cursos como a Fundação Julita, o Parque Santo Dias, a Horta Cores e Sabores, o Espaço Cultural CITA e a Associação Monte Azul, bem como os coletivos que construíram o processo ombro a ombro com a Eparreh sendo eles a MEGÊ design sustentável, Coletivo Somos, Coletivo Cendira, Sapiencia Ambiental, Instituto Favela da Paz, Nupeci, Ipaperifa, Ecoarte, Permacultoras Coletivas e o amplo apoio de todxs xs parceirxs da Rede Permaperifa.

Prospectamos para todxs a continuidade da nossa luta em 2020 com muito plantio da consciência ecológica pelas quebradas e a construção desta revolução de baixo para cima, do povo para o povo, consolidando os eco-bairros pelo poder popular.

Boas Festas!!!

 

 

Entrevista com Lucas Ciola para o Projeto Alimento

“A horta é usada como ferramenta de formação política. Usamos a horta para praticar a democracia participativa, para que as pessoas atuem politicamente todos os dias na hora de decidir o que fazer nos bairros delas: o que fazer com os espaços ociosos, com o lixo orgânico, com os recursos locais. A gente tenta trazer essa noção de cidadão responsável pelos seu espaço na cidade através da horta.”

Confira na integra Entrevista com Lucas Ciola para o Projeto Alimento:

http://www.projetoalimento.com.br/permacultura-metropole/

Veja outras entrevistas com feras da agroecologia:

http://www.projetoalimento.com.br/materias/

 

 

Horta Escolar!!

Atividade na horta aproxima as crianças dos saberes tradicionais de cultivo a terra e trabalha questões de educação ambiental, como alimentação saudável, alimentos sem agrotóxicos, consumo consciente, cooperação, e demais temas que contribua para a formação de uma sociedade sustentável.

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O desenvolvimento da horta trabalha com conceitos e práticas como a compreensão dos ciclos da natureza e da sua relação com o ser humano, o estudo do solo, o acompanhamento do surgimento da vida vegetal, e as diversas possibilidades de reutilização de resíduos orgânicos e sólidos, por exemplo, que contribuem para o aumento do interesse dos alunos pelo estudo.  Em etapas intercaladas à construção da horta acontecem as atividades artísticas de música, dança, e pintura que são fundamentais no despertar da auto-estima dos alunos.

A possibilidade de tratar conteúdos curriculares (história, geografia, química, matemática e biologia) na horta sela o aprendizado pela própria evidência empírica dos conteúdos. Ao mesmo tempo, a inserção de atividades ao ar livre junto a natureza, permite abrir espaço para novas maneiras de aprendizado através da brincadeira e do olhar contemplativo, tornando o ambiente escolar agradável e mais cooperativo nas relações humanas.

A prática de atividades que buscam a preservação do meio ambiente e do bem estar social, harmoniza a sustentabilidade ecológica e social de uma comunidade.  Promovendo o espaço de desenvolvimento da horta e das atividades artísticas com os alunos da escola espera-se engatilhar um processo de conscientização e valorização da vida no bairro da comunidade escolar, estimulando a cooperação, ligando as teorias dadas em aula ao cotidiano prático dos alunos, fazendo aumentar assim o interesse nos estudos, aumentando também a auto-estima destes jovens, dando a importância do indivíduo no coletivo e nos ciclos da vida.

A educação por meio da horta comunitária é um rico instrumento, por onde diversos valores podem ser vivenciados diariamente, criando um espaço de integração com o nosso meio e entre nós mesmos. Fritjof Capra, em seu texto Alfabetização Ecológica: O desafio para a Educação do século 21, coloca:

“Na horta, aprendemos os ciclos alimentares e integramos os ciclos naturais dos alimentos aos nossos ciclo de plantio, colheita, compostagem e reciclagem. Através desta prática, aprendemos ainda que a horta como um todo está inserida em sistemas maiores que também são redes vivas, com seus próprios ciclos. Os ciclos dos alimentos interagem com esses ciclos maiores – o ciclo da água, o ciclo das estações, e assim por diante – que são todos filamentos da rede planetária da vida”

Fritjof Capra